Invocação

Junho 9, 2008

Não acredito em julgamentos. Por isso – e por outra infinidade de motivos – não acredito na maioria dos deuses que os crentes dizem existir.

Se deuses representam o amor, a flor, o rio da aldeia e o Tejo, eles não deveriam nos julgar. Pois desconfio que quem julga não ama. Quem julga uma intenção, uma atitude, um gosto pessoal, um grau de instrução, uma riqueza de espírito ou uma declaração pública de amor – seja ela meia dúzia de berros no meio da rua, ou seja ela uma publicação num blogue comum – ama um pouco menos a cada observação. Amando menos, retarda sua capacidade de se perceber amado a despeito de, talvez, até ser. O julgamento é quase uma agressão. É como um xingamento. Às vezes, de fato é um. É uma “des-declaração” de amor.

Creio ainda que aqueles que muito crêem em deuses precisam desesperadamente que eles existam para que, um dia, possam vir a ser um. Ser apenas gente é insuportável para algumas pessoas. A identificação com seres fantásticos, incompreendidos e donos de toda sabedoria e razão é mais simples e agradável do que aquela com o sujeito que divide conosco o assento do metrô.

Para mim, certas crenças e a arrogância se confundem, se entrelaçam. O deus que julga o faz de cima de um degrau que eu não consigo ver. Ao redor do rio da aldeia há montanhas, não altares.

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