Toda vez que se fala em bullying eu lembro de uma menina em especial: a Antônia Maria.
Já no meu primeiro ano de Liceu, no prezinho, conheci a Antônia Maria, uma criança diferente das outras. Antônia era muito inteligente, falava como adulta, não tinha humor de criança. Não dava risada quando se falava em cocô, xixi, pum. Não achava graça no pica-pau e no pernalonga, mas sorria feliz quando cantávamos as musiquinhas infantis das aulas de francês. No questionário do “caderno de perguntas” sua comida favorita era frango com quiabo, ao invés dos hamburgueres, batatas fritas e lasanhas das demais respostas.
Gordinha, aos oito anos já usava sutiã. As outras crianças não perdoavam sua indiferença aos assuntos infanto-mundanos. Batiam nela, arrumavam briga o tempo todo, xingavam-na de baleia e saco de areia. Jogavam comida nela e sempre a escolhiam por último para os times da educação física e para os trabalhos em grupo. Ela chorava.
Dentre todas as crianças da escola, Antônia tinha um carinho a mais por duas em especial. Valéria e eu. Procurando escapar de um bullying em potencial confesso que, por vezes, evitava a amizade. Valéria também. Mas Antônia parecia não ligar. Gostava da gente de verdade e insistia em ignorar nosso desconforto.
A menina era muito solitária e só não era mais porque tinha uma mãe esperta e atenta que resolveu agir. Selma, sabendo do carinho da filha por mim e pela Valéria logo tratou de ficar amiga de nossas mães. Essa atitude amenizou as coisas para o lado de Antônia. Tenho certeza de que, sem isso, o bullying em cima da menina seria bem mais violento. Portanto, pais, get involved!
Lembro perfeitamente de minha mãe pedindo para que eu defendesse Antônia das maldades dos colegas porque, afinal, ela gostava muito de mim. E lembro da minha mãe insistindo para que eu fosse à sua festa de aniversário. E depois para que a convidasse para a minha, em retribuição.
Eu convidava. E frequentava a casa dela. E por vezes a defendia dos xingamentos simplesmente escondendo-a das más intenções alheias mas, no começo, eu me sentia forçada a fazer isso. Não era uma coisa natural em mim. Decerto, se minha mãe não insistisse tanto em me fazer entender que as maldades não eram legais eu, provavelmente faria parte do grupo dos malvados. Depois passou. Sua companhia se tornara agradável (principalmente quando Selma mandava um pedaço de bolo de banana especialmente para mim). Ainda assim, quando eu estava com ela, estava SÓ com ela. Os outros não se aproximavam. Crianças…
Já Valéria, era mais agressiva. Gostava de bater. Batia em todo mundo. Até nos meninos. Não batia na Antônia, mas deixava claro que não fazia isso somente porque suas mães eram amigas. Valéria, até quando estava feliz, batia. Me lembro do dia em que ela foi pedida em namoro pelo Rodriguinho (“pedida em namoro”, ói que fofo). Tínhamos dez anos. No afã de me contar a novidade ela, feliz, feliz, me prensou contra a parede como se fosse me dar uma surra e anunciou: “o Rodriguinho quer namorar comigo!”. Me largou lá meio sem ar e saiu correndo feliz, feliz.
Hoje Antônia mora na Europa. É casada, tem um filhinho e está muito feliz. Encontrei com ela há cerca de dois ou três anos, nem sei. Foi quando a internet começou com aquela mania insuportável de reunir pessoas do nosso mais remoto passado. Ela continuava igual. Diferente. Mas, hoje, já não me dá mais tanta bola.
Sabe que eu não tenho nenhuma lembrança de bullying… apesar de quando criança ter como melhor amiga a Karina, gorduchinha e chorona. Acho que ela sempre foi xingada de “baleia”, no mesmo nível em que eu era chamada de “palito”. Acontece que para mim, ser magricela nunca foi um problema. E acho que acabei por achar que ser gordinha tbm não era problema pra ela. Será?
Tenho foto de nós duas juntas – os extremos. É bem engraçado nós duas dançando lambada. E ai que saudade que deu…
Beijo
Ah! só mais uma coisa: nunca tive problemas em ser magricela, e acho que minha mãe teve papel fundamenteal nisso. Talvez esse tbm seja um caminho, um jeito de os pais ajudarem.
=)
Pois é… Lá no Liceu havia outras crianças gordinhas e elas não sofriam como a Antônia. Não era a forma física dela que chamava atenção, mas sim seu comportamento. Ela não seguia os padrões. Não sei explicar… Ela não era nerd. Não era isso. Acho que ela era séria, sabe? Se interessava por assuntos de gente grande. Falava como adulto. A natureza dela era mais velha. Entende? Ela gostava de frango com quiabo.